terça-feira, dezembro 19, 2006

O Toque de Deus




É quase Natal e como nem só de pensar vive o homem (e eu muito menos) decidi dar um presente a mim mesma. Fiz um interregno nas minhas aventuras na BN e dediquei umas tardes a um dos meus maiores prazeres: a fotografia. Eu sei que é um cliché mas de facto uma imagem vale por mil palavras, sobretudo quando é captada in persona. Sou capaz de deixar de sentir, de pensar... . Perco a noção do tempo, concentrada naquele espaço. Sou apenas eu, ali... e a minha alma sedenta de delírio, de alienação, de elevação.
São estes momentos que reateblecem o meu equilíbrio perdido, me devolvem a Paz e a serenidade. Tenho a revelação de Deus em cada nuvem, em cada onda que espraia, em cada gaivota. Fecho os olhos, inspiro o ar frio daquele fim de tarde de Dezembro. Sou Feliz.
Daqueles momentos soberbos, restam as imagens geradas ao sabor do clique, do batimento acelerado do coração em êxtase. Quão belo é o mundo. Basta parar para vê-lo e ele revelar-nos-à todo o seu esplendor.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Foi obra do.... Barroco!

Apesar de todas as burucracias - como um bom serviço público português que se preste - Susaneide e o Olívia acederam finalmente à opulenta sala de leitura geral. Uma tarde bem passada entre leis anti-esclavagistas e consecutivas formas de contornar essas mesmas leis - nada de novo portanto - e ledas leituras sobre a Morte e seus caracteres. Para completar o solarengo quadro, só juntando um investigador da evolução do PIB Português nós proximos 20 anos, ou do actual número de desempregados licenciados. Como dizia a outra... amazing!
Como calculam os leitores, o estado psicológico das nossas heroínas - que já não é dos mais equilibrados - sofre um substancial abalo durante estas horas. Terminada a sessão ainda efectuam o número circense do equilíbrio de apetrechos pessoais e espécies consultadas - como gosta a BN de lhes chamar. É uma panóplia de óculos, telemóveis, cadernos, fotocópias, cartões, material de escrita e garrafas de água (dissimuladas claro) - essas armas de destruição maciça. A juntar à quinquilharia, vão as ditas obras, ou espécies, sujeitas ao sobejante dos braços. Em casos-limite, o queixo também ajuda. À saída, entregues os compêndios às diligentes (?) senhoras que de imediato fazem a contagem dos exemplares pedidos - sim, não vá haver alguém que saia muito descontraidamente com um deles debaixo do braço - podem os leitores respirar de alívio por mais um dia terminado. Olívia e Susaneide não foram execepção. Contudo, naquele dia algo não estava bem. Para trás ficara a porta da sala de leitura e caminhavam devagar absortas no pensamento. Tão lentas e pesadas como os próprios passos. Susaneide sobretudo.
Carregava consigo uma tarde inteira de suado estudo e denso saber. Mal ela imagina que... literalmente também!
- Ah... humm.... e esse? - pergunta impávida Olívia ao olhar naquele momento os regaço de Susaneide.
Susaneide faz-se e desfaz-se em todas as cores. Esbugalha-se. Mirra de incredualidade. Transporta consigo um titânico dicionário do século VXII, azul, capa rígida e delicadamente debruada a dourado. Uns 35 centímetros de tamanho, 10 de envergadura... e uns 3 quilogramas de peso, na melhor das hipóteses. Passado o inicial pasmo, espasmam-se de riso sufucado. Susaneide-Sorrateira desliza até à sala de leitura, em direcção às estantes de consulta livre.
Se não tem cota no computador, passa que nem ginjas. "Qualquer dia vou experimentar levar a tapeçaria que está pendurada lá ao fundo. Ia dar um jeitão lá para casa"- excogita Olívia entretanto... .

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O guarda Serôdio

- Boa tarde! É para irmos à biblioteca... eu tenho de renovar o cartão e a minha colega precisa de fazer um, pois é a primeira vez que vem cá. Podemos entrar?
- Pois bem. A menina que tem o cartão pode entrar... quanto a si, venha cá.... o seu BI sff.
- Posso fazer agora o cartão?
- A Biblioteca Nacional está em funcionamento de Segunda a Sexta-Feira entre as 09h30m às 19h30m e aos Sábados das 09h30m às 17h30m. Isto no horário de Inverno que vai de 15 de Setembro a 14 de Julho.
- Pois... e posso fazer então o cartão, agora?
-No horário de Verão, de 15 de Julho a 14 de Setembro, funciona apenas nos dias úteis, das 09h30m às 17h15m. Está então fechada aos fins de semana.
- Isso é indubitavelmente interessante. E... para entar já?
-Depois ainda há os feriados e possíveis pontes que serão devidamente assinaladas com atecedência.
- Carton, card, tarjeta, karte, κάρτα, scheda... ?!
- Para aceder aos nossos serviços terá de fazer um cartão de leitor.
- [OH! NÃO ME DIGA?!]
- O cartão custa oito euros e cinquenta cêntimos, na nova moeda, o que corresponde a mil e setecentos escudos, na moeda antiga.
- [Siiiim... e gostava de entrar hoje ainda...]
- Só pode fazê-lo no Serviço de Acolhimento e Cartão de Leitor.
- [De facto, só o nome promete! Mas ja deu para reparar no quanto sabem "bem acolher"... ]
- Então e posso fazê-lo... AGORA?!
- Os cartões de leitor são apenas feitos de segunda a sexta feira das 9.30 às 17.30H. E como vai ser efectuada uma cobrança, como no seu caso, o atendimento termina 30 m antes do encerramento. E aos sábados está encerrado.
Susaneide vai criando raízes do lado de lá da fronteira.
- Vai-lhe ser tirada uma fotografia com uma webcam e terá de informar os nossos serviços do motivo da sua visita.
- Ok.. ok.. ok... mas eu queria fazer agora... . Já nasci a tempo de estar aqui, tenho oito euros e meio, trago a cabeça para a fotografia, pés para andar, uma tese para fazer... DÁ PARA FAZER O CARTÃO AGORA?!
- Ah? Quer entrar e fazer agora?! Já podia ter dito! Isto realmente... . Humpf!

Dia 1

Um arrepio percorre a espinha de Susaneide ao avistar o esquálido edificio. Está, mais do que nunca, apreensiva:
- Olívia... eu sei que é a tua primeira vez, por isso aviso-te já: saem daqui muitos senhores a falar sozinhos! - diz, de olhos esbugalhados.
- Já te aconteceu?
- Não. Ainda não... . Tu ainda estás a tempo... .
- Eu preciso... . É a única saída! Tal como tu... . Cedo percebeste que só aqui encontrarias um rumo. Vais ver! Juntas seremos mais fortes!

Inspiraram bem fundo e entraram.

As aventuras de Olívia e Susaneide na Biblioteca Nacional

Nota Prévia:

Tenho o prazer de inaugurar este espaço para partilhar com o mundo - e seus comuns mortais - as experiências-limite nesse tao nobre e cáustico (!) espaço de reflexão que é a Biblioteca Nacional. Local de situações e (sobretudo...) "gentes" pitorescas, da qual não me excluo, desde já, porque se já não "batia com elas todas", no ano que vem, por esta altura, já devo estar totalmente aculturada. [Note-se o eufemismo, a tropo de sentido... etc... etc... !] Em suma: vou estar pior que eles todos juntos!
Contudo, numa tentativa de manter a sanidade mental pelo maior período de tempo possível, decidi empreender a minha primeira visita, e seguintes, acompanhada. Qual Sancho Pança e Dom Quixote, qual Mickey e Pluto, qual Major Valentim e seu cartão de crédito - e outros pares famosos da história - Olívia e Susaneide iniciaram no último mês a sua demanda!
Une-as a profunda e excelsa amizade, o companheirismo, 5 anos de licenciatura, o mau humor de quando em quando, a chalaça... e a néscia insanidade duma tese de mestrado às costas. Uma com os seus escravos muribundos e outra com os seus... mortos célebres!
Isto promete, hein?! Nem que seja muitas horas de investigação de ambiente ligeiro e vivaz... ou talvez não.... .

Os episódios que se seguem serão verídicos e da exclusiva iresponsabilidade das intervenientes. Desaconselha-se a leitura por pessoas mais impressionáveis ou que simplesmente não tenham paciência para me aturar. Incentiva-se o comentário favorável e o envio de cheques em branco "ao portador". Que é que querem? A vida de estudante desempregado não está fácil! E as fotocópias na BN são a 20 paus!

terça-feira, novembro 21, 2006

Callema - Sob o signo do Desejo

Nunca antes o meu modesto blogue teve tão nobre missão. Tenho o prazer e o privilégio de anunciar o lançamento da revista literária Callema.

Hoje, houve quem colocasse a negra dúvida da necessidade desta revista. De facto, a Cultura não é uma necessidade. A Literatura e outras Artes não o são. Precisamos delas para viver? Não. Mas precisamos desesperadamente delas para nos mantermos homo sapiens, no mais puro sentido da expressão. Como alguém me confidenciava hoje, a Literatura é uma forma de comunicação. Acrescentaria eu, contra mim mesma - curiosa do mundo dos media -, que talvez seja a forma de comunicação mais nobre que existe. A Literatura diz de uma forma que mais ninguém é capaz de dizer. A Literatura pode ser lida e re-lida e, mesmo assim, é capaz de dizer algo sempre novo e, portanto, actual e intemporal.
Este punhado de gente jovem quis e a obra nasceu, provando a todos que os cursos de Línguas e Literaturas poderão ter fins bem mais elevados que as filas no centro de emprego ou da precaridade da carreira de docente.

«Nasceu algo bom», disse hoje com orgulho a Professora Doutora Maria do Rosário Monteiro. Bom e necessário. Precisamos que se discuta Literatura, que se divulguem os autores marginais, os novos autores, os investigadores. É fácil falar dos consagrados. Mas deles, não é necessário dizer mais nada. É a hora de dar voz e lugar àquilo que é desconhecido e que, afinal, também é bom. Para que um dia deixe de ser também necessário falar sobre eles. Para que um dia também possamos revisitá-los.

Que seja na Callema!

Votos de muito sucesso para esta revista que acaba de nascer. E os meus parabéns sinceros a todos que tiveram a coragem e a audácia de lançar esta semente num Portugal de solo fértil a ervas daninhas... . Esperemos mesmo que "bastem as cascas", como dizia o Professor Manuel Rodrigues. Oxalá colham muitas... batatas!

terça-feira, novembro 14, 2006

"... e eu estava só com a areia e com a espuma daquele mar que cantava só para mim"
















Perguntam talvez alguns de vocês.... qual é o prazer de sair da água fria em pleno lusco-fusco, quando a temperatura desceu e já se tornou demasiado fria para o comum dos mortais? Qual é o prazer de despir um fato de neopreno encharcado? Qual é o prazer dos cabelos desalinhados a pingar de sal, da areia colada ao corpo, do exibicionismo da troca de roupa em público?
Ninguém entende.
Nem mesmo eu, apesar de acompanhar mais de perto, durante uns três anos, o bodyboard, o surf e as demais modalidades. Sempre tive paixão pela praia, pelos pôr-do-sol, pelo areal vazio numa tarde solarenga de inverno, pela chuva forte a cair no mar vista do conforto do carro. Hummmm! Costumo dizer na brincadeira que me licenciei na praia. Mas talvez não ande longe da verdade. Serei dos poucos priveligiados que pôde estudar horas a fio sob a paisagem mais linda do mundo - a mais inspiradora e arrebatadora. Talvez só a Sophia consiga exprimir esta minha paixão. Talvez por isso eu sorva cada verso dela, como se lesse os meus próprios pensamentos inexpressáveis.
Afinal havia algo mais.
E finalmente percebi o título da velhinha musica dos BeachBoys "Only a surfer knows the feeling". Esqueçam a água fria, esqueçam o esforço por vezes sobre-humano de passar a rebentação, ou melher dizendo, o inside. Esqueçam o nó na garganta que surge ao ver a onda que nos parece gigante, pronta a fazer de nós uma... alga...! Esqueçam os 'pirulitos', as faltas de ar, as quedas desamparadas na areia. Tudo, mas TUDO pela sensação de descer velozmente uma onda perfeita e de voar, voooar apartir dela... . Tudo, por mais uma pequena vitória naquela onda surfada meio a medo e que acabou por ser a melhor de sempre, até ali. Tudo, pelo prazer de ouvir os uivos de alegria de quem gosta de nós e partilhou dessa mesma vitória. Tudo, mas tudo... por um pôr-do-sol visto 'de primeiro balcão' com cardumes de peixes a saltitar 2 metros à frente. E, por fim, sair da água com os músculos dormentes, mas de alma cheia e adrelanina nas veias.... e olhar uma última vez o sublime horizonte que se despede.

Isto é como uma droga imagino eu.
Mas tenho pelo menos a certeza: não é um desporto, é um vício do corpo.

E só agora comecei... !

PS. E já agora parabéns ao Centeno e à restante selecção nacional. Afinal não somos bons apenas no futebol. Somos ainda melhores num sem número de modalidades, infelizmente, ainda marginalizadas. Apoiem outros desportos! Apostem nos bons atletas que se estão a perder por falta de patrocínios.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Entropia


... porque, por vezes, o testemunho do verbo não basta.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Coisas que amo....

.... a amizade. Aquela em que basta um silêncio e que aconchega e reconforta como uma manta de lã no inverno. Aquela das partilhas das palavras. A cumplicidade das memórias... .

O aroma dum SG ventil ganha forma de carnaval da nazaré 2002. Uma mota ou um T numa camisola. Um piaçaba-acessorize.
Um banco ao sol invejavelmente imune ao passar do tempo. Uma esplanada revisitada que outrora pediu imperiais numa tarde quente. As horas, essas sempre as mesmas. Quando estamos juntas voam como as coisas vividas, sobrevividas, contadas. As eternas dúvidas sobre um futuro que se torna passado, sem darmos conta. Rimos do que outrora nos torturou.

Todos os dias crescemos um pouco mais. Ainda bem que a vossa amizade fica.
Aquela em que basta um silêncio.

Obrigada.

Coisas que odeio....

... além da Guidinha Rebelo Pinto, desse ser lobotomizado que disse que ela "felizmente se dedicou à escrita e não à dança" - quando eu temo que ela dance melhor do que escreve - e do site da Cecília Barreira.... odeio ter quase 1300 caracteres hilariantemente escritos e na altura de postar... «SERVER NOT FOUND»....

Eis a razão da minha ausência. Fica resgistado o meu protesto com greve de quase 20 dias.
Ahah! Tomara a função pública! =P